Paulo Paiva/DP Foto
A pouco menos de um mês para o carnaval 2020, o Galo da
Madrugada, maior bloco carnavalesco do mundo, anunciou que trará para o seu
desfile um carro alegórico com representantes indígenas. Indígenas e carnaval.
Dois temas ligados através de discussões sobre preconceito, falta de inclusão,
respeito e representatividade.
Nas redes sociais, o assunto foi um dos mais comentados nos
últimos meses com maior participação do público jovem e ativo em temáticas
sociais. Não era difícil de achar na timeline lembretes de
"fantasias" que não devem ser usadas nos blocos. Entre elas, a
"fantasia de índio", que gerou desavenças após grande parte do
público, principalmente feminino, desfilar nas ruas com desenhos corporais,
cocais e adereços indígenas.
Voltando para o ano de 2018, quando a repercussão do assunto
se deu após um vídeo de Katú Mirim, primeira indígena a trazer o tema à tona
para as plataformas digitais gerou polêmicas e dividiu opiniões quando criticou
a postura de se "fantasiar de índio". O vídeo surgiu após notar um
grande número de vitrines repletas de acessórios utilizados pelas tribos, na Rua
25 de Março, em São Paulo.
"As vitrines estavam repletas de cocares e aquela cena
ficou marcada na minha cabeça. Para mim foi como ver meus ancestrais e a mim
mesma sendo pendurados", relatou a ativista e artista em seu vídeo no
Youtube. Não faltaram comentários. Uma enxurrada de opiniões a favor e contra
foram publicados.
Katú Mirim também explica que a fantasia "é apenas o
começo de uma discussão sobre questões raciais, direitos, visibilidade e
representatividade dos povos originários“, afirma em vídeo para o seu canal.
Em Recife, Carmem Fulni-ô representante de uma das maiores
tribos de Pernambuco, a tribo Fulni-ô, que desfilará no carro alegórico do Galo
da Madrugada contou que, apesar de entender o movimento, se sente honrada em
participar de um dos carnavais mais tradicionais do Brasil, mas por outra
questão: a visibilidade da mulher em uma tribo machista.
"Trazer um resgate cultural não é fácil, não podemos
ser vistas apenas como fantasia, mas como pessoas da terra, que estamos aqui
vivos e muitas vezes não somos respeitados. Eu quero levar para cima do carro a
luta das mulheres. Na minha tribo apenas os homens aparecem, concedem
entrevistas e representam os Fulni-ô. Quando o convite foi feito para mim, foi
um grito de liberdade. Já eles [os homens] não gostaram. Para mim o carnaval
não é uma festa, é uma luta", explicou Carmem.
Para o presidente do Clube, Rômulo Menezes, a ideia de
trazer representantes de mulheres indígenas das tribos Fulni-ô, Xucuru e
Pancararu é uma homenagem de integração e com elementos que estão registrados
no cordel.
Outras formas de se vestir no carnaval também devem ser
repensadas. O tema "África Pop", ditado em 2016 pelo famoso Baile da
Vogue, que acontece no período carnavalesco, foi duramente criticado após ser
considerado uma "homenagem" fashion e branca ao país com população
majoritariamente negra. A grife Valentino também não escapou. Em janeiro de
2016, o ensaio da campanha foi realizado no Quênia e estrelado por modelos
brancas usando roupas caracterizada pelos avaliadores como "motivos
étnicos", em uma paisagem deserta e com a participação de mulheres negras
e usando roupas tradicionais. Amplamente criticado pelo público, mas aclamado
pela crítica, o tema foi caracterizado como "exótico".
Carnaval, celebração momesca e tradicional tão cultivada
pelos brasileiros tem indícios de um futuro onde homenagens e celebrações podem
e devem ser repensadas. As formas de expressão corporal falam tanto quanto
escritas de 140 caracteres, livros, selfies e histórico de resistência de
tribos indígenas e africanas que são lembradas quando convém a população
branca.
Fonte: Diário de Pernambuco

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