Detentos do Presídio
Baldomero Cavalcanti foram ouvidos no inquérito pela Polícia Civil /Ricardo Ledo
A prisão de quatro advogados, nesta semana, autorizada pela
juíza Lívia Maria Mattos Melo Lima, da 10ª Vara Criminal da Capital, resultado
de uma investigação aprofundada pela Divisão Especial de Investigação e
Capturas (Deic), da Polícia Civil, escancarou um esquema criminoso com atuação
forte no sistema prisional alagoano que contaria com a provável liderança do
advogado Hugo Soares Braga, filho do juiz da Vara de Execuções Penais José
Braga Neto, de acordo com o inquérito policial enviado sobre o caso à Justiça.
As provas apresentadas à Justiça na representação feita pelas autoridades
policiais são robustas e sugerem que os profissionais do Direito estariam
recebendo, mediante extorsão, pagamento de vantagens indevidas para garantir a
transferência de presos perigosos do Presídio de Segurança Máxima do Agreste,
em Girau do Ponciano, para Maceió.
A Gazeta de Alagoas teve acesso à peça encaminhada ao Poder
Judiciário pelos delegados Cayo Rodrigues Silva, José Carlos André dos Santos e
Gustavo Henrique, na qual requeriam a prisão temporária dos advogados Hugo
Soares Braga, Fidel Dias de Melo Gomes, Rossemy Alves Doso e Ruan Vinicius
Gomes de Lima, além do cumprimento de mandados de busca e apreensão na
residência dos três primeiros da lista (confira aqui). Os pedidos foram
fundamentados a partir de depoimentos prestados, documentos e conversas
gravadas em celular. Após decisão da Justiça, foi deflagrada a operação “Bate e
Volta” na quarta-feira (3), que resultou na prisão de três dos suspeitos de
esquema de extorsão, tráfico de influência e associação criminosa. Hugo Braga
se apresentou posteriormente, mas ele e o advogado Fidel Dias foram
beneficiados com habeas corpus, decisão que foi expedida na última quinta-feira
(4). No pedido de prisão, a equipe da Deic narrou que os suspeitos “faziam
cobranças com valores altos aos presos para diversos fins relacionados à
Execução Penal, que poderia ser a transferência entre unidades prisionais e
progressão de regime”. Os valores estariam sendo pagos em locais públicos, como
a praça de alimentação de um shopping, posto de combustíveis e no
estacionamento de um supermercado. A Polícia Civil investiga se a “máfia” agia
desde 2014, segundo o inquérito, com “ação do filho do juiz, antes mesmo dele
obter a carteira da Ordem dos Advogados do Brasil”. Ainda de acordo com o
inquérito, a promessa feita aos detentos seria de atendimento ao pleito com
sucesso, “levando em consideração que os advogados gozavam de influência na
respectiva vara jurisdicional, sempre ressaltando que Hugo Braga possuía
condição privilegiada”. A atuação de Hugo, no entanto, não seria direta com os
possíveis beneficiados com o esquema (no caso, os presos). Os delegados afirmam
que “ele entendia que não podia atuar junto à 16ª Vara de Execuções Penais, por
questões óbvias, e, por isso, demandava aos seus associados à tarefa de
arregimentar os clientes, oferecer as vantagens e, consequentemente, assinar as
petições e receber os valores altos que eram cobrados”. O setor de inteligência
da Polícia Civil passou a acompanhar este caso a partir de declarações que
teriam sido feitas pela juíza Renata Malafaia Vianna, uma das integrantes do
colegiado de magistrados titulares da Vara de Execuções Penais de Alagoas.
Segundo informação, ela teria revelado que advogados que não quiseram se
identificar denunciaram que servidores da Secretaria de Estado de
Ressocialização e Inclusão Social (Seris) estariam exigindo vantagens indevidas
para promover a remoção de reeducandos do Presídio do Agreste para unidades da
capital. A partir do depoimento da juíza, os delegados passaram a se debruçar
na história. Ouviram da chefia de inteligência do sistema prisional alagoano o
indício de que algo estaria errado. O diretor responsável teria contado, em
oitiva, que mesmo diante de recomendações contrárias da segurança pública, os
presos indicados para a Penitenciária de Girau do Ponciano estranhamente
estavam retornado a Maceió, sobretudo, segundo consta no inquérito, “os que são
representados pelos associados do advogado Hugo Soares Braga”. De posse desse
sinal, a Deic intimou os presidiários, que “resolveram abrir o jogo”. Consta na
representação feita pela Polícia Civil que o primeiro a ser ouvido foi José
Ricardo Ângelo, condenado por tráfico de drogas e homicídios (tentados e
consumados) em Alagoas, São Paulo e Minas Gerais. Ele teria confirmado aos
delegados ter sido removido várias vezes para o Presídio do Agreste e explicado
existir um ‘atalho’ para retornar para as unidades da capital por intermédio do
filho do juiz Braga Neto, de acordo com a denúncia formulada pela polícia. O
detento teria revelado que sempre conversava com Hugo e que este repetia “ter
influência junto à assessora da Vara de Execuções penais, que era sua
ex-mulher, assim como junto à assessoria da Promotoria, namorada do sócio dele,
o advogado Rossemy. Também teria afirmado que, pelo menos, quatro vezes, “pagou
a Hugo quantias que variavam entre R$ 6 mil e R$ 17.500, e até a utilização de
um apartamento como garantia de pagamento, para que fosse removido para
Maceió”. O condenado por tráfico disse, ainda, de acordo com o inquérito, que
“foi extorquido ao pedir ajuda ao filho do magistrado para que conseguisse a
progressão da pena”. De acordo com as autoridades policiais, o preso informou que
“lhe foi exigida a quantia de R$ 200 mil, a ser dividida entre os assessores da
Vara, da Promotoria de Execuções Penais e ao advogado”. Como teria alegado que
não tinha o valor, o detento teria revelado à polícia que “passou a ser
ameaçado por Hugo”. “A insinuação era de que se o dinheiro não fosse repassado,
poderia ele prejudicar o processo de progressão”, prossegue a peça policial. No
depoimento, os delegados também dizem ter ouvido de José Ricardo a lista de
outros presos supostamente beneficiados pelo esquema e várias irregularidades
cometidas, a exemplo da inclusão de tempo de trabalho não realizado para
reduzir penas e acelerar progressões de regime. Em outro depoimento, a Polícia
Civil ouviu do preso José Evaldo da Silva, condenado por tráfico de drogas e
associação ao tráfico, uma versão semelhante. O detento teria dito que se
utilizou do “esquema”, pelo menos, sete vezes. “Os acordos fechados chegaram a
R$ 25 mil cada”. Detalhe importante é que, nesta oitiva, os delegados dizem ter
sido informados que o grupo de advogados estaria “negociando uma transferência
em massa” e pedido “a ajuda do referido presidiário para que recrutasse colegas
de cela para adesão, com a vantagem de viabilizar a remoção dele sem custos”. O
detento contou, segundo as autoridades policiais, que Hugo “também pressionava
os seus clientes ao informar que aquela poderia ser a última oportunidade, uma
vez que, com a mudança do sistema da Vara de Execuções Penais, ficaria mais
difícil a redução de pena para sair do regime fechado”. Evaldo teria contado
que, em razão de desavenças no esquema de transferência do Agreste para Maceió,
“Hugo Braga chegou a ser ameaçado de morte pelos presos”. Ainda foram ouvidos
os presidiários José Marcos dos Santos e Geraldo de Lima, ambos acusados de
tráfico. Eles também teriam confirmado que tinham sido abordados no “esquema
criminoso” e revelado que “pagaram aos advogados quantias altas também, visando
à transferência e progressão de regime. Ambos disseram que eram constantemente
extorquidos e ameaçados para que os pagamentos fossem feitos”.
Fonte Gazeta de Alagoas

Nenhum comentário:
Postar um comentário